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escrevendo, escrevendo, escrevendo por minha vida.



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e quando falamos nós temos medo
nossas palavras não serão ouvidas
nem bem-vindas
mas quando estamos em silêncio
nós ainda temos medo

então é melhor falar
sem esquecermos que
acharam que não íamos sobreviver
mais audre lorde.

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Dec 6, 2011
costumes, manias, privilégios

desaparecer quem não parece:
invisibilizar, deslegitimar, desumanizar
desaparecer seus privilégios:
desmontar a materialidade deles

não atrapalha seu andar
não atrapalha seu falar
não atrapalha seu alimentar
não atrapalha seu relacionar
não te afeta

mas quem tropeça no avesso do privilégio alheio
às vezes
cai
às vezes
se incomoda
(e
às vezes
te atropela)

desaparecer quem não parece
invisibilizar, deslegitimar etc.
desaparecer seus privilégios:
fingir que não, que eles não existem (!)
duas operações opostas que na outra ponta se encostam
poucas vezes com a harmonia que é muitas vezes dita
poucas vezes cordialmente
muitas vezes transbordante

privilégio como um tipo de cegueira:
falta de tato
desconhecimento da própria pele.

e se veste de "costumes"
e se vestem de "manias"
e não tem nenhum cuidado

é o que você pode fazer às custas de interdições alheias
mas chama "tradição", "mérito", "herança"
é o que você pode fazer às custas de disputas caladas
mas diz que "sempre foi assim"

duas operações que parecem complementares
mas numa ponta se opõem
e o avesso do privilégio
não é invisível não.

Posted at 08:22 am by kinetic
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Dec 5, 2011
da série "paladares sádicos"

1. olha,
de verdade,
eu não acho que você deveria
comer o que eu como
ou viver como eu vivo
se isso não toca,
de nenhuma forma,
seu coração


você até poderia
se quisesse
mas se não quer, se não pode, se não faz
o karma é seu.


agora, por favor,
não me convide pra nenhum jantar em que a vida de alguém deve ser celebrada às custas da morte de outras pessoas. cadáver na mesa pode até parecer tradição, mas pra mim isso é sadismo.

Posted at 07:59 am by kinetic
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Nov 17, 2011
depois eu que sou estranha

me pergunto se nós, que aprendemos salivar mastigando tortura y morte
que aprendemos gozar dominando afetos, colonizando desejos (escondidos, partilhados, & alheios) quando é que nós vamos aprender outra coisa que não esses prazeres/paladares sádicos.
(depois eu que sou estranha, porque uso uma camiseta escrita "merda"
eu só queria que ter vergonha de ser humana não significasse doença autoimune)

Posted at 05:15 pm by kinetic
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Nov 10, 2011
cadê? quem roubou?

sumiu minha poesia! quem roubou? as palavras duras do papel oficial perder palavra-poesia em troca de palavra-alto-relevo num pedaço de papel-moeda que não fale nem o preço da cópia autenticada em cartório que não vale nada só no conto-de-fadas mas analisado semioticamente, viu? não vem com repente, fabulazinha, retalho de papel que não cola aí fiquei ali absorvida com aquelas palavras pomposas conjugações formais períodos longos, complexos y passou-se um tempo complexo y longo sem que eu me visse escrevendo no papel: aquilo que eu sonhava aquilo por que eu sonhava aquilo porque eu sonhava aquilo que me sonhava acordada carregando a rotina nas costas como um sei-lá-o-quê aí quando eu vi queria escrever poesia mas não cabia mais no papel porque nem tinha mais papel de poesia só tela brilhante miopizante só plasticozinhos simbolizantes só prazos alienantes enfim, só as demandas alheias que assumi como minhas pra entrar no esquema e já ficar cansada logo no começo com preguiça mas performando animada logo - um pouco depois - ensimesmada logo agora até gostando, e tal, mas nada como aquela poesia roubada do seu direito de devir de romper num dia lindo ou extenuante de contextualizar sua existência da forma exata, com a palavra exata, a metáfora exata, a imagem exata ou só a palavra que veio, mesmo a palavra que faltou exatamente como você é num espelho feito por sua própria imagem escrita com palavra: imprecisa, plena mas só um instantâneo poesia que constrói sua alma, desfaz os retalhos, alinhava tudo com afeto y precisão essa poesia é que precisa de você inteira essa poesia é que você precisa e não poéticas calculadas, esmiuçadas, analisadas criticamente em conferências acadêmicas regadas a salas lotadas de cada qual falando para si mesma em busca do certificado y milhares de copos plásticos, talheres plásticos, formalidades plásticas e é tudo descartável, enfim sustentabilidade é só a marca do papel reciclado, feito com 70% de celulose nova celulose, pra quem não se acostumou com a ideia, é a polpa das árvores, hein compare, em termos de metafísica ontológica, o tempo que você leva para: ir até a impressora ver que faltou uma vírgula amassar a folha de papel, jogar na lixeira, voltar pra cadeira, corrigir a vírgula, imprimir outra folha de papel com o tempo que leva uma árvore para: crescer, expandir os braços pra cima, pros lados, e enfiar os dedos bem fundo na polpa da terra, e dali pegar sua água e comida, e de lá receber seu calor e energia, e cada folha de verde carregar em sua infinitudimal pequeneza o mesmo cerne que carrega aquela árvore inteira e em cada braço nascerem flores e as flores terem tempo de murchar porque do fruto e do fruto tempo de crescer cair de novo e dentro dele guardar a semente que espera a terra comer polpa para: finalmente, abraçar a semente e... compare o tempo compare mas tempo é matéria escassa na economia produtiva intelectual certificada pelo órgão qualificativo de regulamentação de "pesquisa" e "pós-graduação" então não te sobra tempo nem para: pensar a folha-papel nem para: pensar a folha-verde nem para: rever a palavra-poema

Posted at 03:49 pm by kinetic
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Mar 6, 2011
a da ponte da voz,

ou a da voz como ponte quebrando

"
em algum lugar do mundo ha uma mulher que esta
perdendo a voz
nao sendo calada,
silenciada,
nem se silenciando ou calando senao que esta
perdendo a voz

pode colar
imagens moveis em peliculas
palavras fixas em carticulas

pode criar
outra simbolica linguistica pos-verbal ou
formas nunca antes vistas de plasmar uma ideia em sinal

mas ai que se esvai
perdendo
sua voz!...

uma mulher,
se existe enquanto grita,
como inventa sua existencia se nao grita?

que sentido tem um dom
que sem som?
que caminhos vai trilhar sua palavra privada
frente a ponte quebrada da voz?
"

abril, 2009.

Posted at 06:40 pm by kinetic
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Feb 9, 2011
couve-flor

paixão é impaciente como a beleza das flores
que nascem e morrem num afã
mas estão guardadas dentro da semente
e o que você prefere?
uma sementeira
ou um jardim?

nota: couve-flor é flor, mas é couve.

Posted at 06:10 pm by kinetic
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30 anos, dois dias, 11 zodiacais

então agora tenho 30 anos. posso finalmente usar conjuntinhos (de viscose ou de linho, como a professora de introdução à linguística usava) porque isso me parece permitido às senhoras

sou uma jovem senhora, agora. mas estou triste como uma adolescente que levou um pé na bunda da namorada porque eu efetivamente levei um pé na bunda da agora ex-namorada. o que é triste como status, nem amiga nem namorada. e por isso tenho pensado que paixão é um saco.

muito ar, muito ar, e eu já sou de aquário.

as palavras não voltaram como eu queria, mas como é meu caderno de poemas transformo num caderno de exercícios diários. retomar o ar da escrita. me sinto sufocada pela insanidade das tireóides e acho que isso é um desafio pra essa retomada.

e minha lua dentro de mim não chegou, não a desse mês. vou dizer uma coisa, passar o aniversário de 30 anos depois de um pé na bunda e no meio da tpm

é foda.

Posted at 03:55 pm by kinetic
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Jan 31, 2011
cadê?

alguém
roubou de mim as palavras
colocou
um pedaço de tristeza no lugar
me enganei
fui falar
era o troço, não a letra
engoli
no lugar de soprar
engasguei
tossi
espirrei
*pigarro*
nada
*pigarro*
não saía
nada
*pigarro*
só entrado
e pesado no meio da garganta
entalada que nem sei lá o quê
e as palavras, cadê?
alguém roubou de mim,
colocou
um bocado de tristeza no lugar
tentou me enganar
funcionou
falar não falei
tentei cuspir
fiz foi sufocar
quem roubou de mim as palavras?
como foi que eu deixei
isso
acontecer?

Posted at 02:22 pm by kinetic
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Jan 25, 2011
desencantada

o mar nunca dorme
fica pestanejando suas pálpebras pintadas
ao longo do dia, e da noite, e do dia e da noite do dia da noite dodia danoite...
cores de sombra
dourada
pálida
rosada
laranjada
preta
azul-esverdeada
preta
cinza-prateada
preta
rózodourada
preta

um pedaço de lua
um pedaço só, e transversal ainda por cima
pendurada no balanço da gangorra do céu
ensinando às trapezistas-fantasma do circo picolino
deixa uma marca de luz na sombra da pálpebra oleosa do olho piscante
das ondas
do mar
como um borrão de flash desavisado
duma máquina analógica
antiquada
máquina-fotográ-fica
e foca o raio do brilho na sombra do olho pestanejante do mar

sobe uma nuvem
cobre a lua
rouba a mancha do brilho
e a cidade toda me parece um bom motivo pra comemorar
a volta da palavra
que foi só uma piscada longa, poxa
uma pescada
daquelas que se dá no ônibus
o trajeto é longo
a viagem saco
le
jante...
as palavras entornam entre uma pescada e outra
um pedaço de sonho

mas o mar nunca dorme
dando suas piscadas
lambendo com os cílios das pálpebras de espuma pintada
a areia marejada da praia

Posted at 07:27 pm by kinetic
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Jan 13, 2011
tiroidismo é uma crise

“nó na garganta”, agora,
significa pra mim uma outra coisa
graças a: borboletas insanas
quando estou meio assim fico
com um nó
na
glândula

(chorar
afrouxa
mas nem sempre dissolve

e a angústia da borboleta
batendo suas asinhas nas pétalas da minha garganta)

Posted at 09:38 am by kinetic
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